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segunda-feira, 20 de abril de 2009

Crônicas do Raposo

Raposo, o Idoso Odioso.
(Primeiro dia dos 65)

Raposo era um cara comum, brasileiro, carioca, descolado, arquiteto, surfista e com um humor ímpar.
Viveu sessenta e quatro anos, trezentos e sessenta e cinco dias e sessenta minutos querendo que esse dia chegasse, e chegou.
Chegou enfim, seu sexagésimo quinto aniversário.
Que beleza!
Não que ele gostasse de ser idoso, muito menos de ser chamado de idoso.
Seus cabelos soltos, castanhos claros, onde os fios brancos pareciam brilhos do sol, pele queimada das inúmeras horas nas areias do Recreio e suas roupas de surfista recém saído do seriado Magnum não somava esta quantia.
Hoje era o dia, que felicidade radiante completar os sessenta e cinco anos e ser um idoso com passe livre em qualquer lugar.
Nunca mais pagar ônibus, meia no cinema, meia no teatro, meia no show do Kiss, meia em qualquer lugar.
Fila de banco então, nunca mais.
Agora era sua vez, em vez de ficar horas dentro da agência do banco se sentindo o próprio Barrichello sendo ultrapassado por todas vovós e vovôs que resolveram furar a sua fila, ele agora seria o Schumacher, iria pra Pole Position.
Passou a ir ao banco todo dia só pra sentir o prazer de ouvir os sussurros entre dentes dos abestados na fila:
“Olha a cara de pau desse cara, ele não tem 65 anos nem aqui nem na China!”
Como fazia bem pro seu ego.
Sentia-se um garotão.
Era um garotão.
Raposo tinha um gato, o Jean Claude.
“Me perdoa Raposo, mas isso é nome de gato afrescalhado”.
“Então chame pelo sobrenome; Van Dame”.

Ele era assim, curto e grosso.
Jean Claude se achava um cachorro, foi criado como tal.
Vai agora botar na sua cabecinha felina que ele não o é.
Bom, mas Jean Claude é outra estória, depois eu conto.
Hoje Raposo saiu de casa pra curtir sua liberdade cronológica.
Pegou um ônibus, não importa pra onde, não pagou a passagem mesmo.
Já valeu.
Entrou pela porta normalmente, mostrou sua carteira e pimba, passou, que maravilha!
Sentou, ao lado de um par de coxas deslumbrantes, pensou; “Hora de rolar aquele papo mole”.
“E ai gatinha, indo pra onde? Pra praia?”
“Não vovô, tô indo pro Hospital, trabalho lá, quer que eu acompanhe o senhor até lá?”
“Que isso gata, sou inteirão, jogo vôlei com a tchurma na praia todo dia, morou?”
“Ah, o Senhor me desculpe, mas vi sua carteirinha achei que o senhor estava indo pra fila do Posto de Saúde.”
É, Raposo, tudo tem seu preço, mas tudo bem, pelo menos não pagou o ônibus.
Mas adiante, o ônibus começa a lotar, uma velhinha se equilibrando com sua bengala, apóia logo aonde?
No Tênis Nike branco, novo do Raposo.
”Caramba acabei de comprar, que m...”
Olha com aqueles olhinhos amarelos e sorriso de quem-quer-sentar-no-seu-lugar.
Tudo bem, Raposo se levanta, afinal ele é um garotão educado, acabara de explicar a gata ao lado.
“Pode-se sentar aqui madame.”
A idade é relativa e tudo tem seu preço.
Lá vai ele, em pé, balançando, sacudindo, escorregando, mas pra onde está indo mesmo?
Sabe lá, pegou o primeiro ônibus que viu pela frente com o entusiasmo de ser o primeiro de graça.
“Caramba, CENTRAL, tá escrito na plaquinha, por isso o negócio tava tão cheio, mas o que vou fazer na CENTRAL? Saco!”
“Bem agora já tô, fico.”

Saltou no ponto final, ou melhor ‘foi saltado’, nem que quisesse conseguiria ficar ali dentro.
Como cabe tanta gente num treco desse a essa hora ainda não sabe.
Parou numa loja de bugigangas, e pronto, estacionou uma vendedora no miléssimo de minuto seguinte.
“Posso ajudar o Senhor em alguma coisa?”
“Pode minha filha, vai lá em casa e pega meu óculos, pra eu poder ver o preço dessa droga aqui.”
“Agora chispa, se eu quiser algo eu chamo”.
Tem coisa mais chata que entrar na loja e chegar junto logo uma vendedora?
Raposo detestava isso.
Na falta do que fazer no Centro da Cidade, comprou uma escova de dente e foi embora.
Atravessou a rua pra pegar o ônibus de volta e pensou:

“Eu num pago mesmo, vou voltar de frescão.”
Voltou.
Pegou uma gripe desgraçada.
Afinal bermuda e camiseta, naquele frigorífico só com gripe mesmo.
Melhor ir pra casa, tomar umas vitaminas C e cama.
Ver um filmezinho depois da novela e pronto.
Chegou.
Abriu a porta.
E click, cadê a luz?
“Droga”
Hoje não era o dia do Raposo.

6 comentários:

  1. Hahaha, nossa, muito bom!! Quero ser assim com 65... hahaha... ser jovem de alma, né??
    Parabéns pelo texto!!
    bjss

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  2. Oi, Fabi,

    Eu tb conheço esse Raposo que vc pintou com cores bem próximas das reais. Acho que vale uma série.Parabéns pela leveza do texto.
    Bjs.

    ResponderExcluir
  3. Fabiana, obrigada por aceitar o convite para a coletiva. Vc pode voltar ao post de chamada e deixar o nome do blog que participará?

    Obrigada, abraço .

    ResponderExcluir
  4. Q belo tempo gasto com essa leitura...creio q todos nós devamos conhecer um "raposo" nas nossas vidas!


    ÓTIMA LEITURA!

    PARABÉNS,QUERIDAA!

    BJUSS!

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  5. Ola! Coisas da misteriosa vida em nossos caminhos traçados por nosso inconsciente e consciente.


    Ecobeijos.
    Patrícia

    ResponderExcluir
  6. HAHAHAHAHA, MUITO BOM PARABÉNS!!!

    ABRAÇOS,
    Marquinhos.

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Obrigada pelo comentário.Voltem sempre.

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